Para além da timidez

A timidez é um padrão de comportamento bastante comum em nossa sociedade. Pessoas tímidas sentem-se desconfortáveis e envergonhadas quando são o centro das atenções, temem algumas interações pessoais e geralmente ficam quietas quando estão fora de um ambiente de segurança (ou seja, com seus entes queridos em um local conhecido). Um estudo americano revelou que cerca de 40% dos adultos se consideravam tímidos, e que 95% dos participantes admitiam ser tímidos pelo menos às vezes.


De fato, a timidez pode estar intimamente relacionada ao ambiente e à forma como o interpretamos. Não avaliamos as mais diversas situações como dignas de um mesmo padrão de comportamento. Por exemplo, em um ambiente formal, me sinto e ajo de um jeito. Em uma balada - típico ambiente descontraído, porém cheio de desconhecidos - ajo de outro. E ainda sou diferente quando estou perto apenas dos meus amigos em uma reunião de nosso grupo. E se rolar uma paquera, meu comportamento e meus sentimentos já são diferentes de todos os outros! Quem não é ou já não foi tímido em pelo menos uma situação na vida que atire a primeira pedra!



Porém, apesar da timidez ser encarada com naturalidade, pessoas muito tímidas podem sofrer de uma patologia chamada de ansiedade social ou fobia social. Esta sim provoca bastante sofrimento e não deve ser encarada como uma forma de viver comum a todos os tímidos. Segundo a Associação Americana de Psiquiatria, a fobia social é caracterizada pelo medo acentuado e persistente de situações sociais (que envolvam ou não desempenho). Quando expostas à essas situações, pessoas com esse transtorno quase sempre sentem muita ansiedade, que por sua vez pode até tomar a forma de um ataque de pânico. Geralmente, elas evitam situações de interação ou de desempenho e, quando as toleram, é com extrema ansiedade ou sofrimento. Porém, esse comportamento de evitação acaba por comprometer bastante a vida dessas pessoas, afetando o trabalho ou os estudos, as atividades sociais e/ou seus relacionamentos. Quem tem ansiedade social sofre muito, e entende que esse medo é excessivo ou irracional.


A essência da ansiedade social é o medo de ser avaliado negativamente pelas outras pessoas. Com isso, as situações sociais viram uma tortura: falar em público, sair para jantar, pedir informações, fazer pedidos, falar em sala de aula, se apresentar a pessoas novas, aproximar-se do sexo oposto, frequentar reuniões e festas e por aí vai. Nessas situações, a pessoa geralmente já se imagina pagando mico, tropeçando, falando besteira, parecendo bobo e sendo ridicularizado pelos outros. Com tanto medo, o corpo reage com uma série de sintomas, como tremer, ficar vermelho, suar, gaguejar, boca seca e até ter brancos a respeito do que fazer ou falar. Daí vem mais um medo que intensifica ainda mais o sofrimento: achar que as pessoas percebem esses sintomas e julguem o fóbico social por conta deles, soando como "esquisitão". E é aí que evitar contatos sociais começa a parecer uma boa alternativa.


A fobia social pode ser generalizada ou específica. Quando generalizado, esse transtorno interfere em quase todas as interações sociais, o que gera muito sofrimento e muitas limitações. Quando específica, a doença interfere apenas em determinados contextos. Alguns exemplos de fobia social específica são: medo de falar em público, medo de realizar provas e medo de se aproximar do sexo oposto. Apesar de não ser tão incapacitante quando o tipo generalizado, a fobia social específica também atrapalha significativamente a vida de seus portadores.


Alguns pensamentos típicos das pessoas com fobia social são:


  • Se eu estiver ansioso, as pessoas perceberão minha ansiedade.

  • Se as pessoas perceberem que estou ansioso, pensarão que sou um fracasso.

  • Sempre devo aparentar ter o controle da situação e ser confiante.

  • Tenho que conseguir a aprovação de todos.

  • Se eu não conseguir, é porque tenho algum problema ou sou inferior.

  • É terrível não ter a aprovação das pessoas.

  • Há um jeito certo e infalível de fazer as coisas socialmente.

  • Não posso falhar na frente de outras pessoas.


Olhando assim, fica nítido que esses pensamentos listados acima são distorcidos. Porém, quem pensa isso geralmente não se dá conta do radicalismo dessa forma de processar as coisas e acaba acreditando no que vem à mente, sentindo e agindo como se tudo isso fosse verdadeiro. E aí, as ações dessas pessoas realmente podem acabar comprometidas, confirmando tudo que elas temem.


A boa notícia é que a fobia social tem tratamento. Além de ser bastante estudada, os resultados obtidos a partir do tratamento com Terapia Cognitivo-Comportamental são animadores. Resumidamente, esse tratamento consiste na identificação do padrão de pensamento do indivíduo, numa reestruturação dessa forma de pensar, no treinamento de habilidades sociais e, por fim, quando a pessoa já estiver preparada, numa exposição gradual às situações de interação com outras pessoas. Ou seja, trabalhamos aos poucos a preparação e o enfrentamento das situações problemáticas - afinal de contas, não há melhor forma de superar o medo do que enfrentando-o. Falando assim parece muito simples, mas é um trabalho em parceria entre o terapeuta e o paciente, que exige dedicação de ambas as partes e cuja duração e aproveitamento varia bastante de caso para caso.


Para saber mais sobre a fobia social, recomendo a leitura do capítulo 8 do livro "Livre de Ansiedade", do Robert L. Leahy, publicado pela Editora Artmed.


Artigo originalmente publicado no blog Papo de Psicólogo.

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