Mas afinal, o que é o medo?

Quem nunca sentiu medo ou ansiedade que atire a primeira pedra (ou vá procurar um médico)! Esses sentimentos, geralmente associados a coisas negativas, são um dos principais motivos para as pessoas buscarem por terapia. O que muitos não sabem é que o medo e a ansiedade são universais e fundamentais para a nossa sobrevivência. Além de presentes em todos os povos humanos estudados até o momento, eles não são sentimentos exclusivos de nossa espécie - se repararmos bem, outros animais também manifestam reações de medo, como cachorros, cavalos, gatos e até mesmo tartarugas! Mas por que isso acontece? Por que temos que sentir medo e ansiedade? Para que isso serve?


Tais sentimentos existem para nos dar limites, e para isso precisam ser desconfortáveis mesmo. Uma pessoa sem limites é capaz de fazer qualquer coisa, inclusive se colocar em situações muito perigosas, podendo arcar com sérias consequências. Pensando por esta ótica, o medo e a ansiedade são mecanismos de proteção – tanto para nós quanto para outros animais - pois possibilitam que fiquemos alertas e tomemos providências para não deixar que algo ruim aconteça. E se estamos no topo da cadeia alimentar, em boa parte é por conta desse medo.


Uma vez que somos capazes de calcular riscos, podemos prever situações perigosas e nos proteger delas, mesmo sem elas estarem acontecendo no momento. Esse é o caso da ansiedade, sentimento que aparece pelo simples fato de cogitarmos situações complicadas ou perigosas, em que talvez não sejamos bem sucedidos (como falhar numa prova que ocorrerá na semana que vem ou não conseguir apresentar aquele trabalho para o chefe depois de amanhã). Sobre este sentimento, Clark e Beck, explicam que:


A ansiedade descreve um estado mais permanente de ameaça (...) que inclui outros fatores cognitivos além do medo, tais como aversão percebida, incontrolabilidade, incerteza, vulnerabilidade (desamparo) e incapacidade de obter resultados desejados.


Já o medo é uma reação automática mais básica, relacionada a um perigo que esteja bem na nossa frente. É o que acontece ao percebermos estar num local muito alto, encontrar um bicho peçonhento muito próximo de si ou . Ambos os sentimentos estão relacionados ao que achamos que pode vir a acontecer – ou seja, estão voltados para o futuro – e só aparecem quando nos sentimos ameaçados ou em perigo.


Uma vez que achamos que estamos em perigo, desde a pré história nós (e os outros animais) temos duas formas eficazes de reagir: fugir ou lutar. Geralmente fugimos quando temos alguma margem de tempo, e lutamos quando estamos muito acuados. Dessa forma, nossas chances de escapar ilesos da ameaça aumentam. Para que consigamos realizar essas ações imediatamente e com alta eficácia, não podemos estar em estado de relaxamento. Por isso, nosso sistema nervoso libera automaticamente algumas substâncias na nossa corrente sanguínea, modificando toda a nossa fisiologia interna, que fica muito mais acelerada. É por isso que sentimos sintomas físicos como taquicardia, respiração ofegante ou desritmada, transpiração, tremedeira, tensão muscular, mãos e pés frios e boca seca, entre outros.


Na verdade, esses sintomas aparecem por conta de uma reação em cadeia. O coração acelera para circular mais rápido o sangue pelo corpo. Com isso, a respiração fica acelerada, pois precisamos de mais oxigênio para dar conta dessa circulação mais rápida. O sangue, por sua vez, se concentra em regiões específicas para facilitar a fuga ou a luta: os músculos grandes, como braços, pernas, costas e abdômen, por exemplo – muita gente sente tensão justamente nessas áreas. Se o sangue se concentrou nessas partes, se desconcentrou de outras menos necessárias para esse tipo de ação, como pés e mãos – por isso as extremidades podem ficar frias. A boca seca é comum, pois toda a energia do corpo está voltada para a ação – e não para a digestão. Pelo mesmo motivo, algumas pessoas ficam enjoadas quando muito nervosas. O objetivo dessa alteração no nosso corpo é nos deixar preparados para agir. E para a luta ou a fuga serem realmente eficazes, temos que ficar preparados o mais rápido possível.


Um fato interessante é que o nosso cérebro não está preocupado em avaliar se a interpretação que fazemos do perigo é realista ou se é “minhoquinha” da nossa cabeça. Às vezes temos uma ideia errada ou distorcida da situação, como é o caso de pessoas com medo de barata. Entre um ser humano e uma barata, quem é que está correndo risco de vida? A barata, evidentemente. Porém, mesmo assim muita gente interpreta na barata uma ameaça grande, reagindo com sintomas físicos e fugindo rapidamente. Esse é um exemplo clássico de medo infundado. O que acontece é que se o cérebro parar para avaliar se nosso medo é realista ou coisa da nossa cabeça, perde tempo. E numa ameaça real, temos que reagir de forma muito rápida. Lembre-se que os mecanismos do medo e da ansiedade são muito antigos, e em outros tempos mais remotos os perigos eram diários.


Se você reparar bem, quando estamos diante de uma ameaça rapidamente nos vemos muito nervosos – é uma reação quase imediata. A primeira vontade que dá é a de fugir, conforme já explicamos. Numa situação em que a pessoa interpreta de forma distorcida o perigo, se ela optar pela fuga sentirá alívio imediato – “Ufa, me livrei dessa situação!”. Porém, uma vez que o perigo está só na cabeça dela, a médio e longo prazos ela só reforçará o medo – “Todo mundo consegue lidar com isso, menos eu”, “Devo ter algum problema” e “Sou incapaz” são alguns dos possíveis pensamentos que surgirão. Mas se a pessoa enfrentar a situação, perceberá que o nível da ansiedade sobe, mas com o passar do tempo desce. Se a ansiedade foi feita para nos proteger, ela não irá nos matar. E se ela permanecer por muito tempo sem necessidade, poderá levar o nosso corpo à exaustão – então o próprio corpo trata de acabar com ela, restaurando o estado normal do nosso organismo. Você pode perceber isso durante situações de tensão, como falar em público: é comum sentir-se mais tenso no começo e terminar o discurso mais relaxado. Porém é preciso tempo para se acostumar à situação, ou seja, exposições muito rápidas a situações assustadoras não são eficazes para a perda do medo. Temos que persistir e enfrentar as situações até sentir alívio das sensações.

Quando enfrentamos nossos medos, da próxima vez que formos para a mesma situação a intensidade desse sentimento será um pouco menor. Permanecendo na situação até a ansiedade baixar, a cada experiência ela será menor ainda, e assim por diante. É por isso que o enfrentamento funciona: precisamos nos adaptar às situações para perder o medo.

A Terapia Cognitivo-Comportamental tem se mostrado uma excelente opção para tratar de medos específicos (fobias) e de outros transtornos de ansiedade, como a Síndrome do Pânico, a Ansiedade Social e o Transtorno de Ansiedade Generalizada. A base do tratamento consiste em preparar o paciente para enfrentar seus medos por meio de técnicas de manejo da ansiedade e de reestruturação de pensamentos disfuncionais. Posteriormente, numa segunda fase, o terapeuta e o paciente montarão juntos um plano de enfrentamento de situações, para que gradativamente o paciente vivencie o que antes temia e supere seus medos. A ideia é seguir o ritmo de cada paciente, de forma que a terapia não seja torturante. Portanto, se você se sente incomodado, limitado ou frustrado por sentir medo, já sabe que há tratamento e que, procurando por um profissional qualificado, suas chances de se livrar desse problema podem ser bem altas.


Artigo originalmente publicado no blog Papo de Psicólogo.

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